31 março, 2007

estava Tluasrem congeminando, enquanto observava os putos que se entretinham com a bola, a jovem que riscava ao Sudoku, a mulher que esperava o 23, os velhos que morriam à sueca, os varredores que limpavam as mesmíssimas ruas que no dia seguinte estariam exactamente iguais, os deambulantes que vendiam banalidades, o director-executivo que entrava no carro através da porta aberta pelo seu motorista de longa data, o motorista que há vinte cinco anos abria a mesma porta, o pescador que saía às três da manhã, a D. Clotilde que desabafava com os seus amigos de sempre, os pombos que ouviam os desabafos de sempre, que força era esta?
Não compreendia. Como era possível a apatia daqueles que se mantinham presos a uma rotina? Que planta era esta que lhes fornecia tamanha resina para os manter colados àquele quotidiano? Será que buscavam aí as suas forças? Ou faria sentido acreditar que era a planta que deles necessitava? Como giraria este mundo sem esse elemento?
Sentiu que o que essa planta transmitia tinha um efeito agridoce. Era o resultado do pior e do melhor que a existência oferecia. Era a autora dos momentos de maior enfado,tédio,tristeza das suas vias. E por essa mesma razão, ao sumir-se momentaneamente, era também responsável pelos melhores momentos da vida de cada um daqueles seres, autênticos depósitos de sonhos. Mas fugir-lhe era tão inevitavelmente inútil como ficar sentado à espera dessa eterna companhia. Essa companhia que se adapta à realidade de cada um.

Apercebeu-se então. Não havia planta para ele. Não havia nem o quente nem o frio. Nem doce, nem amargo.